Maio 21, 2018

Historiador Alan Sales - Cabralzinho O “Anti-herói Amapaense”

By Maio 16, 2018 No comment
Os acontecimentos recentes, envolvendo a vencedora do concurso Miss Amapá, que representaria o nosso estado no concurso Miss Brasil, que equivocou-se no momento de responder a um questionamento a respeito da principal manifestação cultural do Estado do Amapá, o Marabaixo, demonstra que somos um povo que valoriza muito pouco nossa história e cultura, que fazemos pouco caso de nos apropriamos desse conhecimento tão relevante e de propagandear positivamente momentos importantes de nossa história.
 
Dito isso, atenho-me a dissertar sobre a história de um dos mais controversos personagens da história do Amapá, personagem que é constantemente alvo de críticas, por supostamente haver sido alçado a categoria de herói nacional e local sem o devido merecimento. Seu nome: Francisco Xavier da Veiga Cabral, ou simplesmente Cabralzinho.
 
Este paraense, de estatura baixa e físico não muito avantajado, chegou à região do extremo norte do atual Estado do Amapá para trabalhar em atividades comerciais, após tumultuada e controversa participação na vida política partidária na capital paraense. Aqui chegando, Cabralzinho fez parte, junto com Desiderio Antônio Coelho e o Cônego Domingos Maltês, do Triunvirato, junta administrativa que foi criada com o objetivo de garantir a ordem pública e os interesses nacionais, uma vez que os franceses questionavam os tratados de limites entre o Brasil e a França após a descoberta de outro em 1894 no Rio Calçoene.
 
Após diversos impasses envolvendo os interesses nacionais e estrangeiros na região do Contestado Franco-Brasileiro, Cabralzinho liderou um milícia local que rechaçou a invasão de uma tropa de Legionários franceses liderada pelo Capitão Lunier, que havia recebido ordens de prender Cabralzinho e leva-lo até Caiena. Após embate corporal, Lunier foi morto.
 
Na fuga, os Legionários decidiram executar idosos, mulheres e crianças, decisão cruel que fazia jus a índole deste exército de mercenários que, de acordo com texto do professor Fernando Rodrigues quase sempre eram “homicidas, pervertidos, falsários e traidores, que nessa organização militar buscavam refúgio para ocultar seus delitos, porquanto para nela ingressar não se exigia bons antecedentes”. Tudo isso ocorreu exatamente na manhã do dia 15 de maio de 1895. Se Cabralzinho realmente matou o Capitão Lunier, é o menos relevante, o fato é, que sua reação ao organizar a resistência dos brasileiros residentes na Vila do Espirito Santo do Amapá somada ao massacre de brasileiros naquela região, acelerou a resolução do conflito, que se deu no campo da diplomacia, após brilhante atuação de José Maria da Silva Paranhos, o Barão do Rio Branco.
 
No dia 1º de dezembro de 1900, quando corte arbitral suíça reconheceu o Rio Oiapoque como limite entre o território brasileiro e o francês. Cabralzinho, entre 1896 e 1897 percorreu o Brasil de Norte a Sul como herói nacional e defensor da pátria e também recebeu do exército brasileiro o título de General Honorário. As ações de Cabralzinho, podem não significar muito para nós, que, como afirmei no início deste texto, não valorizamos nossa história, porém tem um grande significado para o Brasil e a formatação do atual território brasileiro.
 
A definição da posse das terras do extremo norte do Amapá ao Brasil, assim como a anexação do Acre em 1904 definem no final do século XIX e início do século XX as últimas fronteiras do Brasil, além do que, consagra os amapaenses e acreanos como cidadãos que lutaram contra estrangeiros para pertencer a nação brasileira.
 
Alan Sales é professor de História da Rede Publica Estadual.
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Última modificação em Quarta, 16 Maio 2018 08:21

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